
Por Caroline Mesquita, g1 MT
No surgimento da Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, a mistura de portugueses, indígenas e africanos foi um dos fatores que ajudou a construir a cultura e pluralidade da, hoje, capital mato-grossense. Mas, em Cuiabá, devido à exploração de mão de obra dos europeus, havia mais proximidade entre os demais povos, o que transformou vários locais da cidade em refúgios ou pontos importantes para seu convívio. Lugares que se tornaram marcos e símbolos e que, após 303 anos, continuam vivos na história, mas que muitas vezez o cuiabano nem percebe ou reconhece ao passar por eles todos os dias.
A história de Cuiabá começou com as expedições dos bandeirantes que vieram da região sudeste no período colonial. Na época, os desbravadores procuravam mercadorias, mas encontraram pepitas de ouro na região do Coxipó. A partir daí, uma cidade se formou e, com isso, vários escravizados foram transferidos para Cuiabá, onde eram obrigados a extrair esses minerais.

O g1 conversou com professores e historiadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que citaram quatro pontos da capital que possuem registros históricos e eram símbolo da resistência e do movimento negro. Entre eles, a professora Ana Carolina da Silva Borges. Para ela, o principal local é o entorno do Rio Cuiabá.
“A População negra estabeleceu uma relação com as águas doce daqui de Cuiabá, do cerrado, principalmente no Coxipó do Ouro. O rio tem uma importância muito significativa sobre o processo de ocupação territorial por parte da população escravizada. Desde a chegada dos bandeirantes, a gente já tem o rio como elemento”, contou.
Já o professor Bruno Pinheiro Rodrigues citou a Praça da Mandioca como um dos mais importantes locais da resistência negra.
“O fato de, hoje, estar associada ao carnaval e a abrigar diversos espaços que denunciam o racismo estrutural no país, como a Casa das Pretas, é muito significativo e importante. A praça em si é a denúncia de que a sociedade brasileira ainda não acertou as contas com o seu próprio passado”, disse.
Confira abaixo os quatro locais:
São Gonçalo Beira Rio

O local é um dos bairros mais antigos da capital e surge a partir do Rio Cuiabá. Por se localizar às margens do rio, a produção de cerâmica vinda do barro fomentou o comércio do século XVIII. O artesanato era vendido no porto, local que recebia as embarcações, e se tornou uma das referências da cultura regional.
“A importância do São Gonçalo Beira Rio e tudo que ele promove, desde a culinária regionalizada do peixe que representa os grupos de pescadores e eram populações descendentes de escavizados, negros e índios. O rio dava o alimento, a pesca, e dava o artesanato, o barro. Então, tem um papel fundamental”, disse Ana Carolina.

O porto recebia diversas embarcações, mas principalmente, era porta de entrada de africanos escravizados.
“Por mais de um século, foi o principal ponto de entrada da população cativa no estado. Ainda não é possível cravar a quantidade exata de africanos trazidos a Cuiabá e Mato Grosso, mas as fontes levantadas até então calculam uma quantia acima de 16 mil. Durante o período da escravidão, toda a orla foi um espaço de entrada de cativos. Era o último ponto de uma viagem que iniciava-se muitas vezes no interior da África, atravessava o Oceano Atlântico por meses e, depois, seguia das grandes cidades escravistas do litoral, como Rio de Janeiro, através de caminhos fluviais rumo a Mato Grosso”, contou Bruno.
Parque Mãe Bonifácia

No século XIX, uma senhora era conhecida por ter muita sabedoria de cura, parto e benzimento. Ela morava em uma casa de barro coberta por palha em uma região afastada do centro de Cuiabá, onde ajudava pessoas que estavam doentes e não tinham condições financeiras de ir ao médico.
“A figura dela é importante porque ficou na memória de uma tradição oral, foi passando de geração em geração. O papel dela era ser curandeira e receber pessoas que tinham uma situação vulnerável e a residência era um ponto de resistência”, disse a professora.

Mãe Bonifácia ainda lutava pela vida da população negra escravizada. A casa de barro era um ponto de abrigo dos que fugiam de seus “donos”.
“Os escravizados estavam no processo de fuga e se escondiam ou pediam refúgio. Ela prontamente atendia e começou a ser tratada com muito respeito pelo acolhimento e orientação, já que ela sabia de alguns quilombos que ficavam na região”, explica Ana Carolina.
O parque foi construído no local onde ficava a casa de Mãe Bonifácia.
Igreja de São Benedito

A igreja foi erguida às margens do Córrego da Prainha, local onde era extraído ouro. Com o tempo, virou símbolo de manifestações populares, como a Festa de São Benedito, que é realizada até hoje. Nas festas tradicionais do santo, que é um culto ao católico negro, acontecia a coroação do rei do Congo.
A igreja era conhecida por abrigar uma grande quantidade de ouro que era extraído da terra e, posteriormente, entregue aos bandeirantes. Uma lenda urbana da capital diz que, até hoje, há ouro embaixo da igreja.
Praça da Mandioca

A Praça da Mandioca está localizada no Centro Histórico de Cuiabá, onde foram construídas as primeiras casas tradicionais e que carregam traços arquitetônicos coloniais até hoje.
“Uma boa parte delas foi construída pela própria população negra escravizada que foi trazida a Mato Grosso. Atualmente, a praça é conhecida por ser um dos pontos mais importantes da atividade carnavalesca no estado”, disse Bruno.
Por outro lado, a praça marca um dos pelourinhos da cidade, onde os escravizados eram castigados publicamente. Esses espaços eram muito comuns no Brasil durante a escravidão e, em Cuiabá, não foi diferente.
“É possível dizer que há marcas da população afro-brasileira em quase todos os monumentos históricos da capital mato-grossense”, disse o professor.